segunda-feira, 26 de setembro de 2011

O Filho eterno - Cristovão Tezza

''...às vezes simula que é um personagem trágico que não pode deixar de fazer o que faz porque o destino é inexorável, o que é uma fantasia absurda : o grau zero da crença, o vazio da cosmogonia, um abismo de tempo entre ele e os gregos - e no entanto fantasia para si o delírio trágico: nada do que não foi não poderia ter sido. Só a frieza do olhar de fora pode dar dimensão à vida - aqui, agora, ele está no olho do furacão de si mesmo, e a vida jamais pode ser estetizada, ela não é, não pode ser um quadro na parede. Essa, sim, é a suprema alienação, ele pensa, retomando uma das palavras dos anos 1960, que se repetiam como mantras: alienado, alienação. O que, na sua memória difusa, seria alguma coisa contrária à autenticidade; o homem autêntico versus o homem alienado. Ideologia : essa palavra que ninguém sabe o que é e usa a torto e a direito. Processo de ocultação da realidade. Como assim ? Processo de ocultação da verdadeira realidade ? - alguém deveria esclarecer. Cristãos e marxistas no mesmo barco metafísico. A verdadeira realidade é o tempo, a única referência absoluta, ele divaga, sentindo a própria ferrugem. o inexorável e a transformação: qualquer uma. ... ''


O filho eterno - Cristovão Tezza ( pg. 129, 9ª ed. )